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Fibrilação Atrial: Diretrizes (2026) Compêndio / 11.2 Fármacos Antiarrítmicos e Fibrilhação Auricular – Classificação e Efeitos

Fármacos Antiarrítmicos e Fibrilhação Auricular – Classificação e Efeitos


De acordo com a classificação de Vaughan Williams, os fármacos antiarrítmicos são divididos em quatro classes principais (I–IV).

Os fármacos antiarrítmicos são classificados de acordo com os recetores cardíacos sobre os quais atuam:

  • recetores dos canais iónicos envolvidos no potencial de ação
  • recetores do sistema nervoso autónomo

A digoxina é um fármaco antiarrítmico, mas não atua diretamente sobre recetores no coração.

  • A digoxina aumenta o tónus vagal, o que subsequentemente inibe o potencial de ação predominantemente no nó AV
  • e adicionalmente reduz a contratilidade do miocárdio ventricular
Classificação de Vaughan Williams – fármacos antiarrítmicos na fibrilhação auricular (FA)
Classe Mecanismo Efeito no ECG Fármaco antiarrítmico Principal utilização na FA Nota
I A Bloqueio de Na⁺ + bloqueio ligeiro de K⁺ ↑ QT,
± ↑ QRS
Procainamida Cardioversão (intravenosa aguda) Risco de TdP com QT prolongado
Disopiramida Controlo do ritmo (raramente) Efeitos adversos anticolinérgicos (retenção urinária, glaucoma)
I C Bloqueio potente de Na⁺ ↑ QRS Flecainida Cardioversão, controlo do ritmo Apenas na ausência de doença cardíaca estrutural (ensaio CAST)
Propafenona Cardioversão, controlo do ritmo Apenas na ausência de doença cardíaca estrutural (ensaio CAST)
II Bloqueio dos recetores β ↑ PR,
↓ frequência
Bloqueadores beta Controlo da frequência Primeira escolha em FA + hipertensão/doença cardíaca isquémica
III Bloqueio dos canais de K⁺ (alguns também bloqueiam Na⁺, Ca²⁺, e recetores β) ↑ QT,
± ↑ QRS/PR
Amiodarona Cardioversão, controlo do ritmo Mais eficaz, mas com muitos efeitos adversos no uso prolongado
Sotalol Controlo do ritmo Requer monitorização do QTc, risco de TdP
Dronedarona Controlo do ritmo (menos eficaz) Uma “amiodarona fraca”
Ibutilida Cardioversão (intravenosa) Cardioversão aguda de FA pré-excitada e flutter auricular, risco de TdP
IV Bloqueio dos canais de Ca²⁺ (não-DHP) ↑ PR,
↓ frequência
Verapamil Controlo da frequência Contraindicado se FE < 40 %
Diltiazem Controlo da frequência Preferido na hipertensão e FA
V Vários mecanismos Vários efeitos Digoxina Controlo da frequência Eficaz em repouso, menos durante o esforço. Preferida se FE < 40 %
Vernacalant Cardioversão (intravenosa) Seletivo auricular, poucos efeitos adversos

TdP – Torsades de Pointes, AFl – flutter auricular, IHD – doença cardíaca isquémica

Esquema do efeito dos antiarrítmicos de classe I demonstrando as diferenças entre as subclasses IA, IB e IC no impacto sobre o potencial de ação, a largura do complexo QRS e a duração do intervalo QT no ECG.

Classe I (bloqueadores dos canais de Na⁺)

  • Bloqueiam o potencial de ação (PA) não nodal, principalmente os canais de Na⁺, no miocárdio ventricular:
    • Canais de Na⁺ ativados durante a fase 0, ou
    • Canais de Na⁺ inativados durante as fases 1, 2, 3
  • Consoante a intensidade e o tipo de canais de Na⁺ que bloqueiam, dividem-se em 3 grupos:
    • Classe IA
    • Classe IB
    • Classe IC
  • Intensidade do bloqueio dos canais de Na⁺ na fase 0: IC > IA > IB
    • o que se observa no ECG como alargamento do QRS e prolongamento do intervalo PR
    • quanto mais largos o QRS e o PR, mais lenta é a velocidade de condução do PA através dos ventrículos e aurículas,
      • portanto, a frequência da fibrilhação auricular (FA) diminui.
    • A Classe IC alarga mais o QRS e abranda mais a condução: IC
  • Intensidade do bloqueio dos canais de Na⁺ nas fases 1, 2, 3: IA > IC > IB
    • o que se observa no ECG como alargamento do intervalo QT
    • quanto mais longo o QT, mais longo é o período refratário efetivo (PRE).
    • O miocárdio auricular permanece inexcitável durante mais tempo, o que impede a repropagação rápida dos impulsos e a reentrada.
      • Reduzem o limiar da frequência máxima da FA
  • São dependentes do uso (o seu efeito aumenta em frequências > 90/min),
    • porque em frequências > 90/min a diástole (fase 4) encurta e os fármacos antiarrítmicos Classe I permanecem ligados aos canais de Na⁺ por mais tempo
Esquema do efeito dos antiarrítmicos de classe II — betabloqueadores — demonstrando supressão da atividade simpática com desaceleração do ritmo sinusal e prolongamento dos intervalos PP e PQ no ECG.

Classe II (bloqueadores beta)

  • Bloqueiam o potencial de ação (PA) nodal, os recetores beta, nos nós SA e AV.
  • Ligam-se aos recetores β-adrenérgicos e bloqueiam as catecolaminas.
  • Consoante os recetores β que bloqueiam, os bloqueadores beta (BB) dividem-se em:
    • BB não seletivos – bloqueiam β1 e β2
    • BB seletivos – bloqueiam predominantemente β1 (e menos β2)
  • Os recetores β1 localizam-se predominantemente no nó SA e depois no nó AV
  • Atuam predominantemente nos recetores β1 no nó SA e prolongam a fase 4 do PA.
    • abrandam a frequência do nó SA em ritmo sinusal (efeito cronotrópico negativo)
  • Os BB têm maior efeito quando o doente apresenta aumento do tónus simpático:
    • mais durante o dia do que à noite, profissões de elevado stress
  • Abrandam a condução através do nó AV e prolongam o período refratário efetivo (PRE) do nó AV; o efeito na FA é:
    • abrandam a frequência ventricular durante a FA porque abrandam o nó AV (efeito dromotrópico negativo).
    • reduzem o limiar da frequência ventricular máxima durante FA taquicárdica.
  • Reduzem a contratilidade ventricular (efeito inotrópico negativo)
  • Através dos recetores β2, podem causar broncospasmo, que é o principal efeito adverso
    • por isso, utilizam-se BB β1-seletivos na FA
Esquema do efeito dos antiarrítmicos de classe III — bloqueadores dos canais de potássio — demonstrando o prolongamento da repolarização do potencial de ação e do intervalo QT no ECG, com duração do complexo QRS inalterada.

Classe III (bloqueadores dos canais de K⁺)

  • Bloqueiam o potencial de ação (PA) não nodal, principalmente os canais de K⁺, no miocárdio ventricular.
  • Bloqueiam predominantemente os canais de K⁺ durante a repolarização na fase 3 do PA.
  • Prolongam o período refratário efetivo (PRE), o que se observa no ECG como prolongamento do intervalo QT
    • O miocárdio auricular permanece inexcitável durante mais tempo, o que impede a repropagação rápida dos impulsos e a reentrada.
    • Reduzem o limiar da frequência máxima da FA
  • Amiodarona
    • é um fármaco antiarrítmico com mecanismo de ação “misto”
      • bloqueia predominantemente os canais de K⁺ e também bloqueia parcialmente outros canais do potencial de ação (K⁺, Na⁺, Ca²⁺), bem como recetores β.
    • é classificada como fármaco antiarrítmico Classe III porque bloqueia predominantemente os canais de K⁺
    • está entre os fármacos antiarrítmicos mais eficazes porque bloqueia todos os canais do PA e os recetores β.
      • no entanto, tem mais efeitos adversos, o que frequentemente obriga à suspensão
      • e não deve ser utilizada por mais de 12 meses.
Esquema do efeito dos antiarrítmicos de classe IV — bloqueadores dos canais de cálcio — demonstrando lentificação da condução AV com prolongamento do intervalo PQ e redução da frequência cardíaca no ECG.

Classe IV (bloqueadores dos canais de Ca²⁺)

  • São bloqueadores altamente seletivos do potencial de ação (PA) nodal, dos canais de Ca²⁺, nos nós AV e SA.
  • Bloqueiam predominantemente o nó AV e depois o nó SA
  • Prolongam a condução nodal AV e o período refratário efetivo (PRE) do nó AV:
    • abrandam a frequência ventricular durante a fibrilhação auricular (FA)
    • reduzem o limiar da frequência ventricular máxima durante FA taquicárdica.
Esquema do efeito da digoxina como antiarrítmico de classe V demonstrando aumento da atividade parassimpática com prolongamento do intervalo PQ e redução da frequência cardíaca no ECG.

Digoxina

  • Estimula o nervo vago e inibe o potencial de ação (PA) nodal no nó AV e no nó SA.
  • A digoxina atua:
    • predominantemente no nó AV e, subsequentemente,
    • no nó SA e no miocárdio ventricular
  • A digoxina não está formalmente incluída em nenhuma das quatro classes antiarrítmicas principais de Vaughan Williams (I–IV)
    • no entanto, na prática é frequentemente referida como um “outro fármaco antiarrítmico” ou um “fármaco antiarrítmico Classe V” (embora não seja uma categoria oficial).
  • Aumenta a contratilidade ventricular (efeito inotrópico positivo)
    • inibe a bomba Na⁺/K⁺, o que conduz a um aumento do Ca²⁺ intracelular,
    • resultando em inotropia positiva e aumento da fração de ejeção do ventrículo esquerdo.
Tratamento antiarrítmico – Principais contraindicações Classe
O tratamento antiarrítmico não é recomendado em doentes:
  • com síndrome do nódulo sinusal (sem marcapasso). Não administrar:
    • Bloqueadores beta
    • Sotalol
    • Amiodarona, Dronedarona
    • Flecainida, Propafenona
  • com bloqueio AV de segundo ou terceiro grau (sem marcapasso). Não administrar:
    • Bloqueadores beta
    • Sotalol
    • Amiodarona, Dronedarona
    • Flecainida, Propafenona
    • Verapamil, Diltiazem
  • com intervalo QTc >500 ms. Não administrar:
    • Amiodarona, Dronedarona
    • Sotalol
    • Ibutilida
    • Procainamida, Disopiramida
    • Flecainida, Propafenona
III

Estas diretrizes são não oficiais e não representam diretrizes formais emitidas por qualquer sociedade profissional de cardiologia. Destinam-se apenas a fins educacionais e informativos.

Peter Blahut, MD

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